Com orçamento recorde e previsão ainda maior para 2026, cidade vê saldo de empregos despencar e aposta em novos anúncios para reverter cenário
Cordeirópolis vive um paradoxo difícil de ignorar. Enquanto os cofres públicos registram uma das maiores arrecadações da história do município, o mercado de trabalho formal segue em ritmo oposto, com queda acentuada na geração de empregos, conforme dados oficiais do Novo Caged.
Em 2025, a Prefeitura fechou o ano com R$ 287,257 milhões arrecadados, superando a previsão inicial de R$ 273 milhões. Para 2026, a projeção orçamentária é ainda mais elevada: R$ 312 milhões. Para um município com pouco mais de 25 mil habitantes, isso representa uma renda per capita orçamentária superior a R$ 12 mil por morador ao ano, um número expressivo para cidades de porte semelhante no interior paulista.
Apesar desse fôlego financeiro, o reflexo na economia real não acompanhou o mesmo ritmo.
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Emprego em queda brusca
Os números do Caged mostram que Cordeirópolis saiu de um saldo positivo de 508 empregos formais em 2024 para apenas 23 em 2025, uma retração de aproximadamente 95% na geração líquida de vagas. O dado chama atenção especialmente porque o número de admissões em 2025 foi até maior, mas praticamente neutralizado pelos desligamentos.
Setores tradicionalmente fortes, como comércio e serviços, ficaram estagnados ou com saldo negativo, enquanto a indústria apresentou crescimento tímido, incapaz de sustentar o mercado de trabalho local.
Na prática, há movimento, mas não há expansão.
Novo investimento anunciado
Em meio a esse cenário, a prefeita Cristina Saad anunciou a instalação de uma nova empresa no município. A VIP Leilões confirmou a construção de um pátio de veículos em Cordeirópolis, com investimento estimado em R$ 20 milhões e a previsão de 120 empregos diretos. A empresa já iniciou as obras, e a negociação foi articulada diretamente pela chefe do Executivo, que recebeu o CEO Rudival Júnior no gabinete e visitou o canteiro.
O anúncio é positivo, mas ainda cercado de expectativas. Na prática, o impacto real dependerá da confirmação das contratações, do perfil das vagas e da absorção de mão de obra local.
Vale lembrar que a última contratação em larga escala efetiva no município ocorreu com a instalação do Supermercado Examine, que de fato gerou empregos em volume significativo e perceptível na cidade.
Orçamento alto, cobrança maior
Com um orçamento que cresce ano após ano, a cobrança também aumenta. A pergunta que fica é direta: por que uma cidade que arrecada mais não consegue transformar esse crescimento em emprego e renda de forma consistente?
O desafio da atual gestão não está apenas em anunciar novos investimentos, mas em converter arrecadação recorde em desenvolvimento econômico sustentável, fortalecendo setores que empregam, atraindo empresas com impacto real e reduzindo a rotatividade que hoje consome o saldo de vagas.
Cordeirópolis tem dinheiro, tem orçamento e agora tem anúncios.
O que ainda falta é fazer essa conta fechar na vida do trabalhador
Realidade x expectativas
Embora a cidade ostente uma arrecadação milionária, o que se vê nas redes sociais e nos relatos que chegam diariamente à redação do Martello News é um cenário bem diferente do discurso oficial. Moradores reclamam da falta de medicamentos, da escassez de médicos e especialistas na rede pública, além de problemas graves na educação. Em 2026, pela primeira vez na história recente de Cordeirópolis, o retorno das aulas foi adiado para 19 de fevereiro, situação que gerou indignação entre pais e mães.
Segundo informações extraoficiais, professores só entraram em férias no dia 19 de janeiro por suposta falta de verba para pagamento, o que contrasta com os números robustos do orçamento municipal. Na área das creches, outra polêmica ganhou força: meia hora a menos na entrada e meia hora a mais na saída poderiam ajudar centenas de famílias, mas a mudança não foi feita, alimentando críticas de que a gestão prefere “vídeos e fotos” a soluções práticas. Há ainda relatos de pais que afirmam estar arcando do próprio bolso com atendimentos especializados para filhos autistas, após mudanças que não consideraram a realidade individual de cada aluno.
Soma-se a isso o histórico recente de falta de água, hoje por enquanto normalizada, e a persistente ausência de remédios e atendimento médico. Agora, um novo ponto entra no radar: segundo publicação no Jornal Oficial, a terceirização da merenda escolar já começa a ser desenhada. Cordeirópolis arrecada como cidade rica, mas entrega serviços que muitos classificam como de cidade pobre e, mais uma vez, é a população quem paga a conta. O Martello News segue acompanhando e trazendo as informações.

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