| Uma denúncia apresentada ao Ministério Público questionando a forma como as informações institucionais estariam sendo repassadas pela Guarda Civil Municipal (GCM) de Cordeirópolis acabou gerando uma recomendação administrativa para que o município adote um modelo oficial e igualitário de comunicação com a imprensa. |
O caso foi analisado pela Promotoria local, por meio do promotor Andre Mangino Alencar Laranjeiras, e, embora o procedimento tenha sido arquivado por não envolver interesse coletivo, o documento determinou que a administração municipal adote medidas para garantir maior transparência na divulgação das informações públicas.
“Estou há 19 anos atuando com veículo de comunicação dentro da cidade e região e, pela primeira vez, tive que tomar medidas mais firmes ao denunciar a forma de repasse das informações, para que ocorra de maneira igualitária e isonômica a todos os veículos. Não pedi exclusividade, mas sim igualdade para todos”, disse a jornalista Rosangela Mello.
A jornalista esclarece que o foco da denúncia não foi um veículo específico, mas a conduta administrativa relacionada ao repasse seletivo de informações pela GCM e não contra os agentes da corporação. O documento deixa claro que o Ministério Público analisou a situação como um procedimento administrativo da instituição.
A análise se concentrou na forma como a informação pública estaria sendo distribuída. Portanto, não se trata de um processo contra qualquer portal de notícias.
“Ressalte-se que não se questiona o direito de qualquer veículo receber informação. O ponto central é o tratamento desigual e seletivo dado pela GCM, que aparenta privilegiar um veículo específico e restringir o acesso dos demais, o que pode caracterizar desvio de finalidade e violação aos princípios da impessoalidade, publicidade e moralidade (art. 37 da Constituição Federal)”, consta na denúncia.
Ou seja, a denúncia pede igualdade no acesso à informação pública, o que significa que todos os veículos devem receber as informações de forma igualitária.
“Deixo claro que a denúncia não foi contra agentes da GCM, como estão espalhando em conversas paralelas. Sempre tive muito profissionalismo, respeito e admiração por todos nesses 19 anos de trabalho. O ponto é que eles passaram a ser impedidos de repassar qualquer informação, algo que eles mesmos relataram de forma pessoal, pedindo sigilo para não sofrerem represálias. Esse problema surgiu a partir de 2025. Antes disso, eles próprios repassavam as informações de forma igualitária a todos os veículos e não havia qualquer problema. Participo de inúmeros grupos da GCM de outras cidades e esse tipo de situação não existe”, afirmou a jornalista.
O processo foi arquivado com base na Resolução 1.342/2021 do Conselho Nacional do Ministério Público. O MP entendeu que a questão envolve direito individual da jornalista ou do veículo, e não uma violação coletiva. Isso não significa que o fato não exista, apenas que o Ministério Público não conduzirá investigação própria.
O documento afirma que a própria denunciante pode buscar tutela judicial individual.
“A decisão do Ministério Público passou a circular inicialmente em ambientes internos da administração municipal e até mesmo em redes sociais. Recebi prints de partes do procedimento que já estavam sendo compartilhadas antes mesmo de chegar oficialmente ao meu conhecimento. Isso demonstra, possivelmente, de onde saiu a informação, já que as pessoas diretamente envolvidas seriam eu, como denunciante, e a própria Prefeitura”, relatou.
Segundo ela, comentários sobre o arquivamento passaram a circular entre pessoas ligadas à administração municipal, o que levou a jornalista a buscar diretamente o Ministério Público para ter acesso integral ao procedimento.
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Embora o processo seja público, o acesso ao conteúdo completo da manifestação foi obtido apenas após pedido formal de vista junto ao Ministério Público. A consulta ao procedimento permitiu compreender com mais precisão o teor da decisão e as recomendações administrativas contidas no documento.
“Estou analisando com o jurídico como proceder, já que o Ministério Público deixou claro sobre meus direitos. O caso reacende o debate sobre transparência administrativa e sobre a importância de que a comunicação institucional do poder público seja conduzida de forma impessoal e acessível a todos os profissionais da imprensa que atuam na cobertura dos assuntos públicos do município. Seria covardia da minha parte se eu tivesse feito a denúncia de forma anônima, pois no grupo existiam dezenas de profissionais que sentiam o mesmo problema e com quem mantemos diálogo frequente”, afirmou a jornalista.
Foi dado prazo de 30 dias para adequação administrativa. A Prefeitura e a Secretaria de Segurança Pública deverão criar um sistema oficial de repasse de informações. Caso isso não ocorra, abre-se margem para nova denúncia ou questionamento jurídico.
“Essa reclamação já vinha ocorrendo desde 2025. Esse grupo de comunicação foi sugerido por mim ao ex secretário de Segurança, justamente porque não estávamos recebendo as informações como ocorria até 2024. Como ele não tinha familiaridade com a parte digital, pediu para que eu criasse o grupo e adicionasse os profissionais. O grupo foi criado em abril de 2025. Incluí colegas de profissão que estavam nos meus contatos e, para evitar qualquer acusação de direcionamento, saí da administração e deixei o assessor da Prefeitura responsável pela condução. No entanto, o grupo não foi utilizado de forma correta e igualitária para todos, o que acabou resultando na denúncia”, explicou.
A denunciante ainda pode recorrer ao Conselho Superior do Ministério Público em até 10 dias, solicitando revisão do arquivamento. Dependendo da argumentação apresentada, o caso pode voltar a ser analisado internamente pelo órgão.
“Infelizmente algumas pessoas se utilizaram do verdadeiro foco da denúncia para intimidar, denegrir e, mais uma vez, deturpar os fatos. Mas o verdadeiro jornalista luta pelos seus direitos de trabalhar, principalmente de obter informações de órgãos públicos de forma igualitária. No passado, algumas pessoas criticavam quando páginas de órgãos públicos eram fechadas para evitar debate com a população. Hoje, estando no poder, utilizam práticas semelhantes ao ‘boicotar’ quem não pensa ou não compactua com os mesmos propósitos”, finalizou a jornalista.
Posicionamento da jornalista
Ser mulher no jornalismo já exige coragem todos os dias. E quando a busca pela verdade passa a ser tratada como acusação, essa coragem precisa ser ainda maior. Acima trouxe a reportagem de forma clara, objetiva e jornalística. Ainda assim, não poderia deixar de registrar meu posicionamento pessoal, não apenas como jornalista, mas como mulher que há quase duas décadas exerce sua profissão nesta cidade a frente de um veículo de comunicação.
Poderia aqui listar inúmeras situações em que vi homens utilizarem as redes sociais para tripudiar do trabalho de uma mulher. E inevitavelmente surge uma pergunta: se eu fosse um homem, será que a reação teria sido a mesma?
Discordar de uma matéria jornalística faz parte do debate público e da democracia. Isso é legítimo e sempre será. O que chama atenção, no entanto, é quando a discordância deixa de ser profissional e passa a assumir um tom pessoal, muitas vezes acompanhada de memes maldosos, comentários desrespeitosos e acusações sem qualquer fundamento.
Poderia adotar o caminho mais fácil e transformar tudo isso em um discurso de vitimização. Talvez até funcionasse, pois sabemos que esse tipo de narrativa muitas vezes ganha repercussão. Mas quem me conhece sabe que nunca foi esse o meu estilo. Tanto que esta denúncia não foi feita de forma anônima. Foi apresentada com nome, com argumentos e com fatos. E o próprio Ministério Público reconheceu o ponto central levantado: o direito à igualdade no acesso à informação pública.
Essa nunca foi uma luta individual. É uma realidade que muitas profissionais enfrentam diariamente: a necessidade constante de provar competência, firmeza e equilíbrio em ambientes que, historicamente, sempre foram dominados por homens. E, curiosamente, às vezes as ações orquestradas e críticas surgem justamente de quem afirma defender a valorização feminina.
São mais de 30 anos ligados ao jornalismo e quase duas décadas de atuação direta na cidade. Quem vive essa profissão sabe que ela nunca foi fácil. E para uma mulher, muitas vezes o caminho exige ainda mais resiliência.
Ao longo desses anos já recebi ameaças veladas, já ouvi “conselhos” para tomar cuidado com determinadas reportagens e já enfrentei inúmeras situações delicadas. Não faço acusações diretas aqui, apenas relato experiências que fazem parte da trajetória de quem exerce o jornalismo de forma independente. Muitas vezes isso aconteceu porque noticiei casos de violência contra mulheres, prisões ou situações que envolvem interesses públicos. Em outras ocasiões, simplesmente porque não compactuei com determinadas posições.
Com o tempo, a profissão também ensina algo muito importante: maturidade. Aprendi que nem tudo precisa ser respondido no calor do momento. Aprendi que a verdade, mais cedo ou mais tarde, aparece como apareceu agora. Mas existe justiça para que seja cumprida e farei uso dos meus direitos.
Posso, sim, estar errada em algumas opiniões. Opinião faz parte do exercício da coluna e do debate público. O que não pode ser colocado em dúvida é o direito de exercê-la. E, principalmente, o direito de ser respeitada como profissional, independentemente de quem esteja no poder.
Governos passam. Mandatos terminam. A política gira. Mas o jornalismo permanece.
Talvez o leitor esteja se perguntando: por que falar disso agora, depois de tantos anos? Porque chega um momento em que é preciso dizer: calma, as coisas não são exatamente como algumas pessoas querem fazer parecer.
Vivemos em um país democrático. E ironicamente, muitos dos que hoje ocupam posições de poder sempre se apresentaram como defensores da liberdade de expressão. A pergunta que fica é simples: essa liberdade vale para todos ou apenas para quem pensa da mesma forma?
Já exerci função comissionada em uma gestão passada. Isso nunca foi segredo. E mesmo naquele período continuei exercendo minha função jornalística com responsabilidade e transparência, algo que, inclusive, já foi motivo de críticas no passado. Mas antes de qualquer função pública, eu sempre fui jornalista. E continuo sendo.
Não peço defesa e tampouco busco aplausos. O que qualquer profissional deseja é apenas respeito. E, infelizmente, quando se observa determinados ataques e tentativas de intimidação, fica cada vez mais evidente de onde eles partem.
Recentemente vivi uma situação curiosa. Uma pessoa que nunca havia conversado comigo me abordou na cidade. Disse que já tinha ouvido falar muito sobre “a dona do Martello”. Bastaram alguns minutos de conversa para ela comentar, com certa surpresa, que imaginava alguém completamente diferente. Apenas sorri.
Quem espalha acusações geralmente não conhece de fato quem está sendo julgado. E, muitas vezes, aqueles que mais apontam o dedo não possuem qualquer exemplo a oferecer à sociedade. Todos têm histórias, trajetórias e aprendizados ao longo da vida. Alguns preferem lidar com isso em silêncio. Outros preferem atacar para esconder suas próprias fragilidades e o “passado obscuro”.
Quero também agradecer às inúmeras mensagens que recebo de forma reservada. São muitas pessoas que demonstram apoio, incentivo e confiança. E agradecer também pelas denúncias que continuam chegando ao portal. Quando alguém escolhe procurar um veículo de comunicação para relatar um problema, isso significa que acredita na seriedade do trabalho realizado.
E, para finalizar, não poderia deixar de mencionar uma colega jornalista que também enfrenta situações semelhantes, a Daniela Desidério com a sua página “Farofa da Desi”, que também é muito tripudiada. Durante muito tempo os veículos de comunicação foram conduzidos quase exclusivamente por homens. Hoje esse cenário começa a mudar. Em Cordeirópolis, felizmente, existem mulheres jornalistas que exercem sua profissão com firmeza e independência.
E talvez seja exatamente isso que incomode algumas pessoas.
A todos que acreditam no jornalismo sério, na liberdade de informação e na importância do debate público: minha gratidão.
E, acima de tudo, que Deus nos abençoe.

