Recorde de arrecadação contrasta com redução de investimentos, cortes em serviços e aumento do endividamento da Prefeitura
A Prefeitura de Cordeirópolis arrecadou R$ 442 milhões nos primeiros 18 meses da gestão da prefeita Cristina Saad (União), segundo levantamento realizado pelo Portal Martello News com base nos dados oficiais do Portal da Transparência.
Os números colocam a atual administração em um dos maiores ciclos de arrecadação da história do município. Entretanto, esse crescimento da receita ocorre em um cenário que tem chamado a atenção da população: redução do ritmo das obras públicas, cortes em investimentos, principalmente na área da saúde, reclamações frequentes sobre falta de medicamentos e aumento do endividamento do município.
Para você leitor, ter uma noção: somente entre janeiro e junho deste ano, a Prefeitura arrecadou R$ 154,8 milhões. O orçamento previsto para todo o exercício de 2026 é de R$ 333 milhões, mas, se manter o ritmo atual, a arrecadação deverá superar essa estimativa.
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Comércio paga mais
Grande parte desse crescimento da receita veio do aumento de impostos e taxas municipais.
O caso que mais repercutiu foi o da Taxa de Fiscalização, cobrada anualmente de comerciantes e empresários da cidade.
Embora a atual administração sustente que a alteração tenha origem em legislação aprovada na gestão anterior, foi durante o governo Cristina Saad que os novos valores passaram a ser efetivamente cobrados dos contribuintes. Situação que poderia ser alterada.
Na maior parte dos casos, a cobrança praticamente triplicou. O resultado aparece na arrecadação.
Em 2025, a previsão inicial era arrecadar cerca de R$ 350 mil com a taxa. Ao final do exercício, a receita alcançou aproximadamente R$ 1,64 milhão.
Em 2026, a arrecadação continua em ritmo elevado. Apenas no primeiro semestre, a cobrança já ultrapassou R$ 1 milhão.
O aumento gerou forte reação do setor empresarial e de comerciantes, que alegam aumento da carga tributária justamente em um momento de dificuldades econômicas.
Outro tributo que apresentou crescimento expressivo foi a Taxa de Manejo de Resíduos Sólidos, popularmente conhecida como taxa do lixo, cobrada juntamente com o IPTU.
Em 2025, essa cobrança arrecadou R$ 2,17 milhões.
Já nos seis primeiros meses de 2026, a arrecadação alcançou R$ 3,03 milhões, superando todo o valor arrecadado no ano anterior.
O que entra permanece; o que sai muda
Os números também alimentam um debate político que vem ganhando força em Cordeirópolis.
Nos últimos meses, a Prefeitura encaminhou projetos para alterar leis que estabeleciam obrigações financeiras do município, como por exemplo, a proposta que flexibiliza a destinação de recursos para o Programa Municipal de Bolsas de Estudo.
Em outra frente, a administração também promoveu mudanças na legislação relacionada ao funcionamento do comércio em postos de combustíveis.
Ao mesmo tempo, as cobranças que aumentam a arrecadação municipal permanecem integralmente em vigor.
A discussão levantada por parte da população e por setores da oposição é justamente essa: quando o assunto é reduzir investimentos sociais, a administração demonstra disposição para alterar leis; quando o assunto envolve receitas que reforçam o caixa municipal, não há iniciativa para rever os aumentos já implantados.
Arrecadação supera cidades vizinhas
A arrecadação de Cordeirópolis também chama atenção quando comparada a municípios de porte semelhante.
Enquanto Cordeirópolis arrecadou R$ 154,8 milhões apenas no primeiro semestre deste ano, Santa Gertrudes registrou arrecadação de aproximadamente R$ 127,3 milhões no mesmo período.
Já Iracemápolis arrecadou cerca de R$ 80 milhões.
Dívida cresce mesmo com recorde de receitas
Apesar da arrecadação recorde, os indicadores financeiros mostram crescimento do endividamento do município.
A dívida consolidada da Prefeitura aumentou 44%, passando de R$ 56,6 milhões, em 2024, para R$ 81 milhões, em 2025.
Para este ano, a projeção é que o endividamento ultrapasse R$ 100 milhões, caso sejam concretizadas as novas operações de crédito previstas pela administração.
Também aumentaram as dívidas de curto prazo.
Ao assumir o governo, Cristina Saad recebeu cerca de R$ 18,9 milhões em compromissos com fornecedores.
No encerramento de 2025, esse valor havia subido para R$ 22,6 milhões.
Agora, considerando os pagamentos realizados em 2026 e os chamados “restos a pagar” ainda pendentes de liquidação, o montante chega a aproximadamente R$ 26,1 milhões neste fechamento do primeiro semestre.
O desafio da gestão
Os números colocam a administração diante de um cenário que tende a ampliar o debate nos próximos meses. Se, de um lado, a Prefeitura registra arrecadação recorde e amplia receitas por meio de tributos e taxas, de outro ainda enfrenta questionamentos sobre a redução de investimentos em áreas essenciais, o aumento da dívida pública e a necessidade de rever políticas que antes garantiam recursos obrigatórios para determinados programas.
A discussão que começa a ganhar espaço é justamente sobre como o dinheiro arrecadado está sendo aplicado e quais prioridades estão sendo definidas para o orçamento municipal.

