Cordeirópolis vota à direita, mas não segue o pedido político da prefeita

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Por Rosangela Mello

Cordeirópolis deixou um recado bastante claro nas urnas: a cidade é majoritariamente de direita. Mas isso não significa que o eleitor tenha comprado, automaticamente, o pacote político apresentado pela atual administração municipal.

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Na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro obteve 9.796 votos, o equivalente a 65,17% dos votos válidos em Cordeirópolis. Lula recebeu 4.002 votos, ou 26,62%.

No governo do Estado, a diferença também foi larga. Tarcísio de Freitas venceu na cidade com 74,45%, contra 24,88% de Fernando Haddad.

Até aqui, nenhuma surpresa. Quem acompanha a política local sabe que Cordeirópolis e boa parte da região têm um eleitorado de direita consolidado. Isso apareceu para presidente, governador e também nas escolhas para deputado.

Entre os nomes mais votados, Eduarda Campopiano, do PL, recebeu 1.893 votos para deputada estadual. Para deputado federal, Lucas Pavanato, também do PL, foi o mais votado, com 2.440 votos, seguido por Miguel Lombardi, com 2.252 votos.

O dado mais interessante da eleição, porém, não está apenas em quem venceu. Está em quem não conseguiu transformar apoio político local em voto.

Uma cidade de direita não significa uma gestão popular

A prefeita Cristina Saad se apresenta politicamente como alguém de direita. Mas os números mostram que o eleitor de direita da cidade não acompanhou, na mesma proporção, os candidatos apoiados por ela, pelo vice-prefeito, por comissionados e por parte da base governista.

Isso não é um detalhe pequeno.

Os irmãos da família Leite, apontados como os principais nomes apoiados pela prefeita, tiveram desempenho baixo na cidade. O candidato a deputado federal, embora eleito, recebeu apenas 312 votos em Cordeirópolis. O irmão, candidato a deputado estadual, terminou com 353 votos e não se elegeu.

Foram os melhores resultados entre os nomes vinculados diretamente ao apoio da administração. Os demais ficaram ainda abaixo.

O vice-prefeito Anderson Hespanhol, o Pique, segundo informações de alguns cordeiropolenses, trabalhou pela candidatura de Rita Passos, do PSD, que recebeu 125 votos na cidade. Rafa Zimbaldi, apoiado pela vereadora Deize Betim, teve 315 votos, mas não se elegeu.

Também chamou atenção a ausência de manifestação pública do presidente da Câmara, Paulo de Moraes, em apoio a candidatos nesta eleição.

Na política, o silêncio pode ser estratégia. Pode evitar desgaste, preservar alianças ou permitir articulações longe dos holofotes. Mas ele também pode revelar falta de disposição ou de força política  para assumir posição e mobilizar votos.

Sem um apoio declarado, fica difícil medir qual foi, de fato, o peso do presidente da Câmara no resultado eleitoral de Cordeirópolis. E, para quem ocupa uma das principais cadeiras políticas da cidade, não se comprometer publicamente também passa uma mensagem.

 

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Outro resultado que merece atenção é o do chefe de gabinete, frequentemente apresentado nos bastidores como alguém que “manda e desmanda” e dá a palavra final dentro da administração.

O candidato apontado como próximo a ele, Rafael Saraiva, teve apenas 146 votos em Cordeirópolis. Foi eleito, mas o resultado local mostra que a suposta influência atribuída ao chefe de gabinete não se transformou em voto na cidade.

Na política, não basta falar que tem força, dizer que articula ou se apresentar como quem dá as cartas. Força política se mede quando chega a eleição, quando é preciso colocar nome na rua e pedir voto.

E, neste caso, o número é baixo demais para sustentar o tamanho do poder que tanta gente diz que ele teria. Pelo menos nas urnas, parece haver mais discurso do que capacidade real de mobilização.

O médico ararense Dr. Agnaldo Piscopo, do PSD, apoiado pelo presidente do SAAE, recebeu 256 votos. Em 2020, ele havia conquistado 157 votos para vereador em Cordeirópolis. Houve crescimento, é verdade. Mas, diante da “estrutura política”, o poder que tanto se vende, e  que esteve envolvida no apoio, o resultado ainda é modesto.

No PL, Alex Madureira, que também contava com apoio da prefeita, obteve apenas 150 votos. Isso chama atenção porque Cristina Saad buscou proximidade com o partido e teve participação nas articulações políticas ligadas ao grupo.

Outro caso que merece ser observado é o de Val Demarchi. Segundo informações de bastidores, ele teria procurado apoio da prefeita, lembrando a relação construída no passado entre sua família e o grupo Saad. Val recebeu 257 votos sem o apoio oficial da administração, superando outros nomes que tiveram máquina, cargos e grupos trabalhando por eles.

É um sinal político importante: talvez alguns candidatos já não enxerguem a família Saad como indispensável para construir votação em Cordeirópolis.

O outro lado também mostrou força

Enquanto os nomes ligados à prefeita tiveram resultados discretos, candidatos apoiados pelo ex-prefeito Adinan Ortolan alcançaram votações mais expressivas.

Itamar Borges recebeu 431 votos. Baleia Rossi, 552. A delegada Graciela teve 679 votos. Esses resultados foram impulsionados por uma equipe política ligada ao grupo de Adinan, com atuação de pessoas como Wesley e do vereador Rozimar, que também foi eleito na chapa do ex-prefeito.

Isso não quer dizer que uma eleição de deputado determine, sozinha, o rumo da política municipal. Não determina. Cada eleição tem sua dinâmica, seus candidatos, suas estruturas e suas circunstâncias.

Mas as urnas ajudam a medir influência. E, desta vez, a influência da atual gestão pareceu bem menor do que o discurso e os vídeos fazem parecer.

A esquerda teve mais votos que muitos nomes da situação

Outro ponto que deveria provocar reflexão é o desempenho de candidatos associados à esquerda e ao campo progressista.

Erika Hilton recebeu 653 votos em Cordeirópolis. Ana Perugini, 432. Professora Bebel, 407. Jilmar Tatto, 338. Arlindo Chinaglia, 322.

Em uma cidade onde mais de 60% dos votos foram direcionados à direita na disputa presidencial, nomes da esquerda tiveram desempenho superior ao de vários candidatos apadrinhados pela atual administração.

E essa comparação importa.

Porque não é apenas uma questão de ideologia. O eleitor pode votar em Bolsonaro ou Tarcísio e, ao mesmo tempo, ignorar candidatos indicados por uma prefeita que se declara de direita. Uma coisa não obriga a outra.

Talvez o eleitor esteja separando melhor as coisas: escolhe sua posição ideológica nas disputas maiores, mas não entrega apoio automático a quem ocupa o poder local.

O que as urnas parecem dizer

Na minha análise, Cordeirópolis não deixou de ser uma cidade de direita. Pelo contrário: confirmou isso com força.

Mas a cidade também mostrou que não está obrigada a seguir a prefeita, seus comissionados, seu vice ou seus vereadores toda vez que eles pedirem apoio para alguém.

A gestão pode ter estrutura, cargos, vídeos, eventos e comunicação. Mas voto não se decreta. Voto se conquista.

E talvez esteja aí o principal alerta. A política de hoje não é mais a política de 20 ou 30 anos atrás. O eleitor observa, compara, reclama, conversa e escolhe. Nem sempre da forma que o grupo no poder espera.

Não basta dizer que é de direita. É preciso ter credibilidade com o eleitor de direita.

Não basta pedir voto. É preciso representar algo para quem vive a cidade todos os dias.

As urnas não deram uma sentença definitiva sobre a administração Cristina Saad. Mas deram um recado. E ignorar recado de urna costuma ser um erro caro na política.

Esta é uma análise opinativa, baseada nos números da eleição e na leitura política de quem acompanha Cordeirópolis há anos. Não se trata de reportagem nem de verdade absoluta. É a minha interpretação sobre um resultado que, para mim, merece reflexão.

Na democracia, felizmente, ainda é o eleitor quem tem a última palavra; e a jornalista pode opinar.

Rosangela Mello
Jornalista e fundadora do Martello News

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